ANAIS

IV Seminário de Pesquisa do Vale do Ribeira
 
II Seminário do PBMA
 

16 a 18 de Setembro de 2010

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INFORMAÇÕES

 

COORDENAÇÃO GERAL

Prof. Dr. Zysman Neiman

 

COORDENAÇÃO DO COMITÊ CIENTÍFICO

Profa. Dra. Eliana Cardoso Leite

 

COORDENAÇÃO DO SEMINÁRIO DO PBMA

Prof. Dr. Reginaldo Barboza da Silva

 

HISTÓRICO

 Em 2004 aconteceu o I Seminário. Foi o movimento inicial de algumas organizações e universidades na busca da agregação do conhecimento existente sobre o Vale do Ribeira de modo a se evitar a duplicação das pesquisas, mapear o que já foi feito e tornar esse conhecimento mais acessível às comunidades e moradores da região. Naquela ocasião foram 73 os pesquisadores que se encontraram.

O II Seminário de Pesquisa do Vale do Ribeira ocorreu em 2005 e foi promovido pelo Comitê Gestor da Área de Proteção Ambiental Cananéia, Iguape, Peruíbe (CONAPA-CIP) e na sua organização estão às seguintes instituições: UNESP de Registro, PUC de São Paulo IBAMA de Iguape, Associação dos Monitores Ambientais de Iguape (AMAI), Museu de Zoologia (USP), Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE - USP), Nupaub (USP), Instituto Florestal, UNESP de S. Vicente e a Comitê de Bacias Hidrográficas do Ribeira de Iguape e Litoral Sul (CBH-RB).

O I e o II Seminários surgiram da constatação, através de levantamento preliminar e inicial em algumas bibliotecas acadêmicas, que a região do Vale do Ribeira tem sido durante muitos anos, alvo do interesse de diversos pesquisadores que têm produzido rico conhecimento sobre a área. Paralelamente a essa constatação, percebe-se também que uma parcela significativa desse conhecimento se perde tanto para a comunidade científica quanto para as comunidades locais implicadas nas pesquisas. À constatação seguiu-se o estranhamento e a surpresa de se perceber que as pessoas trabalhavam em suas pesquisas, produzindo teses, dissertações e livros sobre o Vale e, na maioria das vezes, desconheciam o que outros colegas faziam em outras áreas de conhecimento e muitas vezes em sua própria área.

Dada a riqueza dos meios físico, biótico e antrópico da região, são muitos os cientistas que se sentem atraídos para a área e nela desenvolvem extensos programas de pesquisa. A necessidade de um fórum onde se pudesse fazer a troca de conhecimento sobre o Vale do Ribeira vinha sendo sentida já há algum tempo pela comunidade cientifica que atua ali. Alguma coisa já havia sido realizada nesse sentido, de maneira mais limitada em seu escopo geográfico ou temático. Às vezes eram os pesquisadores que atuam no conjunto das ilhas da APA, ou aqueles que trabalham com a fauna marinha que se reuniam, por exemplo. Pensar no conjunto da região acabou se tornando uma tarefa urgente não só com vistas a uma integração do conhecimento já produzido, mas também com a perspectiva de detectar as lacunas de pesquisas que ainda não foram objeto de interesse da comunidade científica. Concomitantemente, era do interesse de todos os pesquisadores ouvidos que a população residente na região, que sempre foi passiva na produção do conhecimento científico, passasse a ser voz atuante e significativa na busca da resposta à pergunta sobre o que se sabe a respeito da região.

Como estratégia, o II Seminário dedicou-se à implantação da rede de pesquisas já apontando como tema para o III Seminário a integração das demais áreas do Vale do Ribeira e a consolidação do Centro de Referência. Assim, o III Seminário do Vale do Ribeira surge com os seguintes objetivos:

 

·   Dar continuidade ao mapeamento das pesquisas realizadas e das em andamento;

·    Busca da integração do conhecimento produzido;

·    Detecção das lacunas de conhecimento sobre a região;

·    Avanço no processo de construção e consolidação do Centro de Referência em Pesquisa e da Rede de Pesquisadores do Vale do Ribeira; e

· Proporcionar o envolvimento das instituições públicas, associações produtoras e as comunidades locais no processo de mapeamento das lacunas do conhecimento sobre o Vale.

  

III Seminário de Pesquisa do Vale do Ribeira

 O dia 21 de novembro foi reservado para a realização da abertura oficial do evento. No período da tarde representantes da comissão de apoio, formada por alunos do Curso de Agronomia da UNESP-Registro, ficaram á disposição no local do evento para recepcionar o participantes e efetivar novas inscrições. Á noite, após o inicio oficial, o Dr. Edin Sued Abumanssur (PUC – São Paulo) realizou a palestra inaugural. Nesse momento fez um resgate do histórico sobre Seminário de Pesquisa do Vale do Ribeira e os princípios que nortearam e norteiam a sua existência. O Prof. Edin também fez uma homenagem a Dra. Denise Seale (IB-USP), pesquisadora atuante no Vale do Ribeira, colaboradora da Comissão Organizadora do III Seminário e participante da Rede de Pesquisadores iniciada com o II Seminário de Pesquisa, que havia falecido há poucas semanas. Na seqüência, para finalizar as atividades, o grupo Batukagê se apresentou com músicas e histórias do folclore regional.

No dia 22, no período da manhã, ocorreu a primeira mesa-redonda sobre “Demandas de Pesquisa no Vale do Ribeira” – composta por representantes de instituições que atuam na fiscalização ambiental, aprovação de projetos e no apoio ao desenvolvimento econômico regional. Esta mesa visou mapear as lacunas de conhecimento que possam subsidiar as atividades dessas entidades, favorecendo a articulação o desenvolvimento regional. A mesa foi composta por representantes da CATI; Direção Regional de Saúde - DRS-XVII; IBAMA e Instituto Chico Mendes; Instituto Florestal – IF; ITESP (Fundação Instituto de Terras do estado de São Paulo).

A mesa redonda de “demandas” proporcionou discussões muito enriquecedoras além de possibilitar a aproximação destas entidades com a comunidade acadêmica e civil presentes no auditório. A Diretoria Regional de Saúde informou que há uma fundação estadual que realiza pesquisas que normalmente atendem suas necessidades, mas no conjunto dos participantes da mesa, entre as necessidades, desabafos e indagações levantadas podemos salientar:

- a necessidade de estudos com defensivos agrícolas utilizado nos bananais, pois muito se tem falado, mas muito pouco ou nada foi realmente estudado a respeito;

- na mesma linha, salientou-se a falta de informações sobre a “saúde do trabalhador” no Vale do Ribeira e estudos relacionados aos altos índices de gravidez na adolescência;

- pesquisas sobre a diversidade cultural do Vale do Ribeira, envolvendo não só as comunidades tradicionais, mas também as ondas migratórias que vieram para o Vale;

- pesquisas em relação ás comunidades tradicionais e suas formas de relação com o ambiente;

- pesquisa em relação á biodiversidade;

- estudos voltados ao manejo sustentável de espécies nativas com potencial comercial;

- estudos sobre agroecologia e sistemas agroflorestais;

- pesquisas que auxiliam, instrumentalizem os órgãos de fiscalização;

- estudos sobre a gestão de Unidades de Conservação, em especial pesquisas participativas;

- todos os membros da mesa também salientaram a falha ou mesmo ausência na forma de divulgação das pesquisas, havendo a necessidade de se aprimorar esse processo.

No período da tarde houve uma seção especial para a apresentação oral dos projetos financiados pelo “Pólo de Biotecnologia da Mata Atlântica” (convênio FNMA/MMA). Dos cinco projetos financiados, quatro realizaram suas apresentações com resultados significativos. Cada qual com linhas distintas dos demais, o primeiro, “Mata Ciliar: A educação e a conscientização como mecanismos de preservação e recuperação”, Dra. Elaine Pavini Cintra (SCELISUL – Registro), envolvendo um programa de educação ambiental voltado à preservação da mata ciliar do Rio Jacupiranginha; o segundo, Dr. Domingos Sávio Rodrigues (APTA – Pariquera-açu) sobre conhecimento de plantas medicinais na comunidade quilombola de Pedro Cubas de Cima, o terceiro, “Compostagem de resíduos da agroindústria do palmito no Vale do Ribeira”, Dr. Reginaldo Barboza da Silva (UNESP – Registro), que com apoio da iniciativa privada testou e padronizou o processo de compostagem utilizando resíduos do palmito juçara, pupunha e imperial, e o quarto projeto, “A Flora do Vale do Ribeira”, Dr. João Vicente Coffani-Nunes (UNESP – Registro) onde se organizou um banco de dados sobre os trabalhos já efetuados na região. Todos os trabalhos, além dos resultados obtidos, apresentaram desdobramentos e perspectivas de continuidade.

O terceiro dia de trabalho, dia 23, no período da manhã o Dr. Arlei Benedito Macedo (Instituto de Geociências – USP), conduziu o debate sobre o Centro de Referências. Inicialmente o oDr. João Vicente Coffani-Nunes fez uma retomada das discussões ocorridas durante a organização e no decorrer do II Seminário de Pesquisa. Na seqüência, mais do que discutir plataformas de armazenamento de dados, priorizaram-se propostas para efetivar o Centro de Referências em Pesquisas do Vale do Ribeira. Nesse sentido, duas propostas foram tiradas: que um projeto deverá ser enviado pelo Dr. Arlei para o Comitê de Bacias do Rio Ribeira de Iguape e Litoral Sul para se dar início ao centro; e que a comissão organizadora do III Seminário de Pesquisa irá enviar um e-mail a todos os participantes que apresentaram pôster para enviarem o arquivo do trabalho para sejam disponibilizados na página do evento (www.registro.unesp.br/seminario). Discutiu-se que há necessidade de um esforço conjunto para, pelo menos, disponibilizar o acesso a bancos de dados já existentes, como por exemplo, o do próprio Sistema de Informações Georeferênciadas do Comitê de Bacias, do Museu dinâmico da Mata Atlântica, NEPAUB e outros. Futuramente, deveria ver a possibilidade de integrar todos esses bancos de dados. Também foi unânime que o Campus Experimental de Registro – UNESP, como a única universidade pública instalada no Vale do Ribeira deveria ser a instituição sede do Centro de Referências, mas que o momento político que atravessa não é o mais apropriado para isso.

Desse mesmo debate, saiu uma moção de apoio ao Museu Dinâmico da Mata Atlântica, projeto instalado nas edificações do KKKK, em Registro, e que está com seu espaço físico comprometido e de futuro incerto. O Museu Dinâmico da Mata Atlântica é o único local em que o acervo é totalmente voltado ao Vale do Ribeira. Além de incluir a sala de exposições, apresenta um espaço para palestra, cursos ou mesmo estudo, e sedia o Centro de Informações Técnico-Científico (CITEC) com um acervo de cerca de 300 títulos de trabalhos, livros, mestrados, doutorado, CD-ROM, VHS sobre o Vale do Ribeira. A moção de apoio será levada ao prefeito da cidade de Registro.

No período da tarde ocorreu a segunda mesa-redonda: “Grandes Projetos Regionais” – composta por representantes dos grandes projetos Agenda 21, Eco-turismo e Plano de Bacias Hidrográficas desenvolvidos no Vale do Ribeira. Cada representante apresentou de forma sucinta os objetivos e propósitos de cada projeto e sua forma de articulação. A Agenda 21, apresentada pelo Sr. Ronaldo Ribeiro (IDESC – Registro), salientou o esforço no envolvimento da comunidade civil através de diversas reuniões em diversos municípios do Vale do Ribeira e a interação com outros projetos governamentais, em especial o CONSAD. A Sra. Anna Carolina F. L. de Oliveira (SMA-SP), falou sobre o projeto de Ecoturismo na Mata Atlântica, sobre sua formulação e recente redirecionamento do projeto onde se procurou ter um contato maior com as comunidades locais. O Dr. Arlei Macedo apresentou a última versão do Plano de Bacias do Rio Ribeira de Iguape e Litoral Sul e o Sistema de Informações Georeferênciadas criado para auxiliar no gerenciamento e consulta.

No quarto e último dia do evento, estava prevista a mesa-redonda “Instituições de Fomento e o Vale do Ribeira”. Esta foi a mesa mais difícil de ser formada, estiveram presentes o Ministério do Meio Ambiente - MMA, com dois representantes, e um representante do Comitê de Bacias Hidrográfico do Ribeira de Iguape e Litoral Sul, outras instituições foram convidadas mas não houve retorno. Os representantes do MMA enfocaram alguns programas do ministério com linhas de financiamento de projetos, em especial um novo programa de “Conservação, Manejo e Uso Sustentável da Agrobiodiversidade” que envolve 12 ações (subprogramas) promovendo o conhecimento, desenvolvimento de tecnologias, uso sustentável, sistemas agroflorestais, valorização do conhecimento tradicional, resgate de sementes e criações criolas e disseminação de experiências, entre outros. Também apresentaram o Programa Brasileiro de Biodiesel, que também envolve vários aspectos comuns ao anterior, como a prospecção de espécies nativas e desenvolvimento de tecnologia e manejo. Mas o Ministério não tem nenhuma linha de financiamento específico para o Vale do Ribeira. O Comitê de Bacias, por outro lado, apresenta linhas de financiamento em função do seu Plano de Bacias. Cada bacia hidrográfica tem um montante alocado para aprovar projetos do âmbito da própria bacia. Assim, desde que o projeto atenda as diretrizes apresentadas pelo comitê, todos podem concorrer a essa fonte de financiamento, lembrando que no caso do Comitê de Bacias os projetos sempre estarem voltados a questões relacionadas aos recursos hídricos.

Finalizando o encerramento do III Seminário de Pesquisa do Vale do Ribeira foi realizada uma assembléia geral coordenada pelo Dr. João Vicente Coffani-Nunes, que fez uma síntese do evento e apresentou as propostas oriundas das mesas-redondas e debates. Também foi apresentada a parceria entre a Universidade Federal de São Carlos, Campus de Sorocaba, e o Instituto Florestal como proponentes para sediar, centralizar a coordenação do IV Seminário de Pesquisa do Vale do Ribeira a se realizar em 2009.

No decorrer do III Seminário de Pesquisa do Vale do Ribeira, do dia 22 ao 24 foram expostos de forma permanente 72 pôsteres das diversas áreas do conhecimento como de botânica, zoologia, conservação, unidades de conservação, turismo, agricultura, zootecnia, geologia, saúde, educação ambiental, física, piscicultura, etc.

O III Seminário de Pesquisa do Vale do Ribeira em relação as duas versões anteriores foi o que obteve a maior abrangência de temas e área geográfica.

 

PRODUTOS

 O III Seminário de Pesquisa do Vale do Ribeira alcançou seu principal objetivo de reunir e discutir com a comunidade acadêmica e instituições que atuam no Vale do Ribeira sobre suas necessidades imediatas, referendando o Seminário de Pesquisa como um fórum para essas discussões.

Consolidou a proposta de efetivar o Centro de Referências em pesquisa do Vale do Ribeira via projeto a ser apresentado no Comitê de Bacias do Rio Ribeira de Iguape e Litoral Sul.

Ratificou a publicação dos resumos do III Seminário de Pesquisa na forma digital pelo site do evento (www.registro.unesp.br/seminario).

Endossou o esforço dos participantes do evento e da rede de pesquisadores em enviar o arquivo de seus trabalhos e pôsteres para alimentar o Centro de Referências, que temporariamente estará associado ao Centro de Informações Técnico-Científico do Museu Dinâmico da Mata Atlântica (www.registro.unesp.br/museu), além da própria página do evento.

Foi lançada a proposta de se iniciar uma discussão sobre a criação de uma Fundação Vale do Ribeira como objetivo de buscar recursos e financiar projetos no Vale do Ribeira e em especial das instituições de pesquisa nele instaladas.

Deliberou sobre a freqüência bienal do Seminário de Pesquisa e aprovou a iniciativa da Universidade Federal de São Carlos, Campos de Sorocaba na pessoa da Dra. Eliana Cardoso Leite, e do Instituto Florestal, representado pelo pesquisador Marcos Campolim, em coordenarem a organização do IV Seminário de Pesquisa do Vale do Ribeira em 2009, tendo com possível tema “A criação da Fundação Vale do Ribeira”. Ratificando a filosofia participativa do Conselho Gestor, via a Rede de Pesquisadores do Vale do Ribeira.

  

CONCLUSÃO

 O III Seminário de Pesquisa do Vale do Ribeira alcançou grande êxito no conjunto de seus objetivos e em especial na consolidação do processo de integração dos pesquisadores e do conhecimento produzido, no mapeamento das pesquisas realizadas e em andamento no Vale do Ribeira, e no processo de consolidação do Centro de Referências em Pesquisa do Vale do Ribeira. Salientando que, em relação aos dois seminários anteriores foi o de maior abrangência de áreas do conhecimento, bem como na distribuição geográfica dos projetos no Vale do Ribeira.

Quando analisamos o número de participantes e o número de trabalhos inscritos, nesses dois itens, os resultados foram numericamente menores do que a segunda edição do evento. No entanto, em relação aos trabalhos inscritos, no segundo evento aceitou-se a inscrição de projetos, portanto trabalhos que ainda não haviam se iniciado, mas somente planejado. Enquanto que no III Seminário somente foram aceitos trabalhos que já tivessem pelo menos resultados preliminares, portanto, que já estão em execução ou já foi concluído. Desta forma, o III Seminário permite ter uma noção melhor, mais real, das pesquisas que são executadas no Vale do Ribeira. Já em relação ao número de inscritos e um número menor de instituições participante pode estar relacionado ao período do ano em que o evento de realizou, isto visto que no segundo semestre de 2007 houve muitos feriados e o fato do III Seminário ter ocorrido no final de novembro (mês com dois feriados), pode ter dificultado a participação de outras pessoas interessadas. De qualquer forma, o número de trabalhos, de inscritos e de instituições participantes foi bastante expressivo.

Dessa forma, o III Seminário de Pesquisa do Vale do Ribeira ratificou a importância dessa iniciativa como instrumento de comunicação, democratização do conhecimento, planejamento, bem como da parceria entre as várias instituições.

Assim como para o II Seminário em que o apoio financeiro surgiu de uma parceria, a realização do III Seminário só foi possível em função da parceria com o IDESC (Registro – SP) e com os projetos da Agenda 21 e o Pólo de Biotecnologia da Mata Atlântica. Aspecto esse que endossa a importância do Seminário de Pesquisa para o Vale do Ribeira, mas que por outro lado salienta a dificuldade de se obter recursos para um evento que foge dos modelos tradicionais da academia e que busca criar um fórum permanente sobre as pesquisas e a democratização do conhecimento não tão somente sobre, mas principalmente no Vale do Ribeira.

Apesar das dificuldades encontradas, é inegável a importância do Seminário de Pesquisa como um fórum integrador e ao mesmo tempo de difusão do conhecimento e da integração da comunidade acadêmica com as diversas instituições que atuam na região, bem como com as comunidades. Assim, acreditamos que iniciativas como o Seminário de Pesquisa do Vale do Ribeira possa ser um modelo a ser e replicado para outras regiões que apresentam aspectos singulares e uma identidade regional como o Vale do Ribeira apresenta.

 

 

IV Seminário de Pesquisa do Vale do Ribeira

 Relatório conjunto elaborado com contribuições do Instituto Socioambiental (ISA) e

Instituto Physis - Cultura & Ambiente

 16 de setembro de 2010

 Mesa de Abertura

 

Dando inicio as atividades do evento, que reuniu mais de 250 pessoas, entre pesquisadores, representantes de comunidades tradicionais, agricultores familiares, estudantes, gestores públicos e funcionários de instituições públicas e do terceiro setor, compuseram a mesa de abertura representantes o Prof. Dr. Zysman Neiman, coordenador do IV Semináriode Pesquisas do Vale do Ribeira, o Prof. Dr. Reginaldo Barboza de Silva, coordenador do II Seminário do Pólo de Biotecnologia da Mata Atlântica, o Sr. representante do Ministério do Meio Ambiente, o Prof. Dr, Peres, Diretor da UNESP, campus de Registro, a Sra. Mirella Seno, representante da FUNEP e Sra Edivina, representante das comunidades tradicionais do Vale do Ribeira. Este ano o formato do seminário foi inovado: além de projetos de pesquisa acadêmicos, foram incorporados projetos e ações desenvolvidos por associações e organizações não governamentais e uma mesa composta por representantes de comunidades tradicionais para avaliar a prática da pesquisa em seus territórios.

 

 

Palestra de Abertura – Paulo Kageyama (ESALQ – USP)

 

Dentre os temas abordados pelo Prof. Kageyamam destacam-se o uso da Biodiversidade do Vale do Ribeira (local mais rico em biodiversidade mais de 70% de cobertura vegetal) como ferramenta para a construção de agroecossistemas equilibrados, relatando algumas das experiências já acumuladas na região. Ao tratar das Ilhas de alta produtividade (IAP), citou o exemplo do tomate rodeado de biodiversidade, cultivado em Apiaí-SP. que atua como um buffer, um equilibrador das áreas de menor biodiversidade. Outro exemplo apresentado foi o de restauração de matas ciliares ao redor de reservatórios, onde se chegou a plantar até 100 espécies nativas juntas, sem que nenhuma apresentasse sinal de praga ou de doenças. Neste exemplo, relatou que após dois anos não se precisou controlar mais formigas, o que demonstra que a biodiversidade contribuiu em muito para o equilíbrio entre cultivo e ecossistemas nativos. Após ainda apresenta a agrobiodiversidade e os sistemas agroflorestais, conclui a palestra afirmando que devemos quebrar o paradigma de que o uso da biotecnologia seja uma atividade do “mal”.  Como mensagem principal, ressaltou a importância do conceito de biotecnologia e do projeto de Pólo de Biotecnologia da Mata Atlântica.

 

Painel 1: Manejo, uso e conservação dos recursos naturais da Mata Atlântica- João Dagoberto Santos – ESALQ/USP  NACE-PTECA

 

Discutiu-se a eficiência da implantação de Sistemas Agroflorestais em assentamentos rurais e agricultura familiar, a partir da capacitação dos moradores desses locais para que os próprios agricultores façam o levantamento da biodiversidade existente em suas propriedades e sejam capazes de assimilar noções para saber planejar sua produção agrícola a fim de alcançar a maximização de resultados do sistema agroflorestal. A partir da discussão sobre a história e as técnicas do sistema agroflorestal, Dagoberto enfatizou a importância de tal sistema para a região do Vale do Ribeira devido suas características de uso e ocupação, que historicamente mostra aspectos de exclusão social, subdesenvolvimentos e descaracterização do meio físico em algumas áreas. Como oportunidade para geração de renda, inclusão social e conservação e recuperação ambiental, o debatedor conclui a partir da comparação de um sistema de plantio tradicional e de um sistema agroflorestal de banana e palmito juçara, que o Vale do Ribeira pode se planejar para que o sistema agroflorestal seja uma realidade em diversas propriedades agrícolas.

 

Nilton Agner (Associação de agricultura orgânica do Paraná – AOPA/ Rede Ecovida)

 

Nilton expôs como acontece a cadeia produtiva e comercialização de produtos agroecológicos da Rede Ecovida, que acontece desde o Rio Grande do Sul até São Paulo. Essa rede congrega 25 núcleos de agricultura familiar, que comercializam diretamente ao consumidor através de feiras livres de produtos agroecológicos e para merenda escolar, sendo que o comércio é da produção excedente, que não foi utilizado para subsistência. A venda para merenda escolar tem grandes expectativas de crescimento já que a rede possui novas perspectivas com acordos com governos municipais e estaduais na região sul. Tal organização se deu a partir da experiência inicial aonde conclui-se que a certificação dos produtos por empresas convencionais não era ideal e adequada para agricultura familiar.

 

Lucia Munari (LECH- USP)

 

Foram apresentadas varias pesquisas do grupo o qual representa, cujo objeto são comunidades quilombolas do Vale do Ribeira, especificamente nos quilombos localizados entre Eldorado e Iporanga. As pesquisas expostas englobam assuntos sobre o sistema agrícola, a saúde e a paisagem florestal dos quilombos e como tais assuntos impactam no modo de vida dessas populações. Com relação ao sistema agrícola, explicou-se a organização espacial dos quilombos, o sistema de coivara e as diferentes categorias de uso do território, e sobre as restrições ambientais devido às limitações de uso do solo, como a proibição da extração de palmito em espaços de unidades de conservação. Sobre a saúde, foram expostas as conseqüências da dieta atual aderida por essas comunidades devido às mudanças no sistema de produção para subsistência. E, sobre a paisagem florestal, discutiram-se as modificações que ao longo do tempo as legislações de restrição do uso do espaço de floresta fizeram com que o modo de vida fosse modificado e conseqüentemente a paisagem natural e cultural onde as comunidades quilombolas vivem foram alteradas.

 

Jocemar Mendonça (Instituto de Pesca)

 

Apresentou o manejo e a conservação dos recursos pesqueiros do Vale do Ribeira, bem como se deu o processo de ordenamento pesqueiro através dos conselhos consultivos e deliberativos e das câmaras temáticas. Nesses fóruns, segundo Jocemar os vários problemas gerados dentro das unidades pode ser  esmiuçados e discutidos, o que torna essas instâncias de gestão fundamentais para o adequado manejo desses recursos.

 

17 de setembro de 2010

 

Painel 2: Mudanças Climáticas

No segundo dia do evento, Cesar Pegoraro, do Vitæ Civilis e Marcio Santili, do Instituto Socioambiental (ISA), dividiram a mesa temática sobre mudanças climáticas e pontuaram a necessidade de investir no diagnóstico sobre os impactos do fenômeno no Vale do Ribeira e as estratégias para reagir e minimizar seus efeitos. Após uma explanação sobre os gases causadores do efeito estufa e do consequente processo de aquecimento global, Pegoraro enfatizou a reflexão sobre o modelo de desenvolvimento e de cidade que queremos, lembrando que as pessoas, na condição de consumidores, têm uma parcela de responsabilidade na manutenção dos atuais processos produtivos e podem fazer escolhas que não sejam coniventes com o modelo colocado.

 

Cezar Pegoraro – Vitae Civilis

 

Segundo Cezar, tudo que é coletivo tende ao abandono, ao desgaste e, portanto, devemos passar a enxergar como “nossa casa”, em um âmbito maior, o planeta.  As mudanças climáticas estão diretamente ligadas ao consumo excessivo e ao crescimento das cidades. O processo de adensamento urbano provocou uma crescente periferização, fenômeno que fez intensificar a necessidade de grandes deslocamentos nas cidades. Se não se liga muito para a questão de onde vem e para onde vão os produtos que são comercializados nas cidades, se hoje em dia compra-se muito sem saber a origem, como imaginar que alguém possa se preocupar com o destino. A pegada ecológica pode ser individual ou coletiva, e Cezar nos desafia com a pergunta: como está esta nossa pegada? Os 20% mais ricos do planeta são responsáveis pelo consumo de 80% dos recursos e também contribuem com esta porcentagem para o aquecimento. As várias projeções que nos são dadas para o cenário que está traçado nos mostra que a temperatura esta crescendo muito. O que fazer? Devemos pensar cada vez mais em estratégias e ações para mudar esse padrão de consumo, de uma economia mais justa, de ações para evitar queimada, e de melhor planejamento sobre o uso do solo. Estudos dizem que até 5% do consumo em uma casa deve-se aos aparelhos ligados na tomada e que não estão sendo usados. A principal mensagem da palestra, em suma, foi apontar a urgência e a responsabilidade de todos com a questão das mudanças climáticas.   

 

Márcio Santilli – ISA

 

Para Marcos, estamos falando de uma tendência de mudança do clima provocada pela ação do homem. O que já sabemos é suficiente para concluir que as mudanças vieram para ficar. O Brasil se insere no problema de uma forma muito própria. A maior parte tem a ver com o desmatamento, diferentemente dos outros grandes poluidores. Somo poluidores florestais, principalmente devido a região amazônica. Já tivemos uma redução significativa do desmatamento na Amazônia, a partir de 2006. Hoje em dia as emissões devem estar meio a meio (combustíveis fósseis e desmatamento). Devemos aproveitar esse momento para colocar com força a discussão sobre o que nós como país iremos fazer. O Brasil aprovou uma lei com uma meta de redução de 40% até 2020. Esta meta precisa ser internamente regulamentada, através de que política de incentivo, pois cada setor tem uma importância maior ou menos. A meta paulista diferentemente da meta nacional, que é focado no desmatamento da Amazônia e no cerrado, trata da diminuição do uso de combustíveis fósseis. A meta paulista é complementar à nacional, até porque São Paulo não tem grandes desmatamentos. E isso tem um custo elevado, pois temos que mudar a matriz energética. O aprofundamento dessa discussão pode trazer para uma região como o Vale do Ribeira uma oportunidade para construir um programa de gestão ambiental valendo–se do que estas metas de redução do clima podem gerar.

 

 

Painel 3: A Pesquisa na Visão das Comunidades Tradicionais do Vale do Ribeiro

 

Adriana Lima – União dos Moradores da Juréia, Geraldo de Oliveira – Agricultura Familiar da Comunidade do Guapuruvu, Edvina Tie da Silva – Quilombo Pedro Cubas de Cima, João Lira – Aldeia Guarany Uru’i  ‘ty

 

           Buscando compatibilizar conservação ambiental, preservação cultural e desenvolvimento econômico, mereceram destaque os trabalhos sobre a viabilidade produtiva dos sistemas agroflorestais dos pequenos agricultores rurais e a apresentação da experiência exemplar do bairro de Guapiruvu, no município de Sete Barras; a produção e comercialização de produtos agroecológicos e a experiência da Associação de Agricultura Orgânica do Paraná (Aopa) e da Rede Ecovida na certificação, monitoramento e escoamento da produção orgânica de 3 500 famílias de agricultores da região sul e sudeste do País; as mudanças verificadas na agricultura de coivara e suas implicações na paisagem florestal, no padrão de ocupação e na segurança alimentar em comunidades quilombolas do Médio Ribeira; a importância da gestão participativa das Unidades de Conservação e de reuniões regulares dos conselhos consultivos e deliberativos com objetivo de formular um ordenamento pesqueiro adequado à realidade das comunidades de pescadores e ao manejo sustentável dos recursos pesqueiros no litoral sul paulista. Foi apresentado um documento elaborado conjuntamente pelas comunidades representadas em reunião anterior ao Seminário. Este documento apresenta os principais impactos causados pela presença do pesquisador em seus locais de moradia e na comunidade. A partir deste documento foi sugerida a elaboração um Código de Ética para pesquisa em comunidades tradicionais. Após a apresentação de tal documento, cada representante falou sobre suas experiências quanto à relação pesquisa/comunidade local. As falas dos representantes das comunidades tradicionais do Vale do Ribeira chegaram a conclusões comuns quanto aos encaminhamentos finais das pesquisas, as quais atualmente não geram retornos efetivos a essas comunidades. Por tal situação as principais demandas são a delimitação de temas de pesquisas em conjunto com a comunidade e ao final, que essas pesquisas gerem políticas públicas de potencial para implantação ou resultados que ajudem na vivencia diária e na otimização do uso dos recursos naturais. Outra demanda de todas as comunidades foi a necessidade de entendimento da Lei de Patentes e participação no processo de criação de patentes sobre produtos advindos da Mata Atlântica e reivindicar seus direitos. Os quatro componentes da mesa concordaram que a pesquisa é importante para a comunidade, desde que os temas, procedimentos e resultados sejam construídos e compartilhados com as comunidades. Como demandas de políticas públicas, os representantes das comunidades colocaram a necessidade de incentivar e apoiar os pesquisadores locais e as pesquisas aplicadas sobre temas que auxiliam no desenvolvimento comunitário, como o reconhecimento dos direitos intelectuais sobre os conhecimentos tradicionais e recursos genéticos, pesquisas sobre a viabilidade do manejo sustentável de recursos (caso da Euterpe edulis, conhecida como palmeira juçara e piscicultura, entre outros), que contribuam para fortalecer as lutas territoriais e a iniquidade no acesso aos serviços públicos. Finalizando, os representantes deram sugestões para elaboração da carta final do evento, entre eles, uma maior abertura para entrada de jovens das comunidades tradicionais nas universidades e abertura de editais de apoio para que essas comunidades tenham pesquisadores delas próprias, transformando conhecimento empírico em conhecimento científico.

 18 de setembro de 2010

 

Plenária Final: Elaboração da Carta Final para encaminhamento dos resultados e demandas à órgãos de fomento e gestores de políticas publicas

          Na plenária final, foram debatidos os encaminhamentos para o fortalecimento do Centro de Referência em Pesquisas do Vale do Ribeira, a partir do relato do Prof. Dr. João Vicente Coffani Nunes que, após explanação sobre o processo historio que culminou neste IV Seminário, sugeriu um esforço de fortalecimento da rede de pesquisadores que vinha trabalhando para a criação desse Centro, pois, por diversos motivos, os mesmos encontram-se desarticulados no momento. Os presentes incumbiram, então, os organizadores do Seminário de enviar todos os produtos do mesmo para ciência ampla dessa rede, de modo a reiniciar o processo de debates entre os pesquisadores. Sugeriu, também, que fosse feito um esforço de todos os pesquisadores e Instituições de Pesquisa que unificassem e democratizassem o acesso ao seu banco de dados de pesquisa, para facilitar a consulta e caminhar no sentido de concretizar o Centro de Referência. Com relação à continuidade do Seminário, o Prof. Dr. Júlio Cesar Suzuki apresentou a candidatura da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (curso de Geografia), em conjunto com os demais parceiros, para a realizção do V Seminário de Pesquisa do Vale do Ribeira, em 2012, também em Registro, sendo aclamado por todos. Quanto ao Pólo de Biotecnologia da Mata Atlântica, o Prof. Dr. Reginaldo Barboza anunciou o fim de projeto, e sugeriu que nova Instituição desse continuidade ao mesmo. Após amplo debate, ficou decidido que a UNESP – Registro seria novamente convidada oficialmente, mas em caso de recusa, a Universidade Federal de São Carlos – câmpus de Sorocaba assumirá o projeto, sob coordenação do Prof. Dr. Zysman Neiman, em parceria com o Instituto Physis. Foi solicitado que no novo projeto seja garantida maior participação da comunidade do Vale do Ribeira, através de seus diversos segmentos e representantes, preferencialmente que a próxima versão tivesse como proponentes um coletivo do qual participasse ONGs, comunidades, órgãos públicos e outras Instituições, em todas as fases, inclusive no planejamento, além da UFSCar - Sorocaba e do Instituto Physis. O Conselho Gestor do Pólo será o fórum onde a decisão de transferência de proponente se concretizará. Para encerrar a Plenária, foi debatida a elaboração de uma carta do evento, com os principais encaminhamentos. Nesse item, os organizadores se propuseram e redigir um documento-base, que ficará a disposição de todos os participantes por 30 dias, para que novas sugestões sejam incorporadas á Carta Final, que então será encaminhada para órgãos de pesquisa, para responsáveis por políticas públicas e para os demais interessados, no sentido, principalmente, de se elaborar um código de ética e conduta para as pesquisa no Vale do Ribeira. Após a apresentação oral dos 4 trabalhos mais votados pelos participantes, dentre os diversos pôsteres, os organizadores fizeram os agradecimentos e encerram o IV Seminário de Pesquisa do Vale do Ribeira.  

          O evento foi realizado pelo Pólo de Biotecnologia da Mata Atlântica e do Instituto Physis - Cultura & Ambiente, com apoio da Fundação (FUNEP), Universidade Estadual Paulista – UNESP/Campus de Registro, Ministério do Meio Ambiente, Laboratório de Ecoturismo, Percepção e Educação Ambiental da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar/Campus Sorocaba, Instituto Socioambiental (ISA), Instituto de Pesquisas Cananéia (IPEC), Centro de Referência em Pesquisas do Vale do Ribeira, Escola de Artes e Ciências Humanas/USP, Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais/UNICAMP, Pontifícia Universidade Católica-SP e IDESC.